Segurança Pública do ES avança em tecnologia, mas perícia oficial segue à beira do colapso sem valorização e recomposição

Por Naiane Almeida – Jornalista do Sindiperitos-ES
A segurança pública costuma ser medida pelos índices de criminalidade, pelas prisões realizadas ou pela presença de policiais nas ruas. Por trás desses resultados, existe uma estrutura complexa que reúne diferentes instituições com funções específicas. Entre elas, a Polícia Científica ocupa papel central: é responsável pela produção das provas técnicas que sustentam investigações e processos judiciais. Como registra o documento, “a Polícia Científica produz as provas técnicas por meio de perícias que sustentam as investigações e os processos judiciais”.
Nos últimos anos, a instituição vive um processo de expansão estrutural, com obras como a Regional Norte, o Centro Integrado de Perícias e a Regional Sul, totalizando investimentos superiores a R$ 100 milhões. Os laboratórios capixabas ganharam reconhecimento nacional e internacional, como o setor de balística e o laboratório de química, responsável por identificar fentanil misturado à cocaína, descoberta que gerou alerta nacional.
Apesar dos avanços, o cenário interno é crítico — e o Sindiperitos-ES tem alertado de forma insistente que a perícia oficial está operando no limite.
Déficit histórico ameaça o funcionamento da perícia
Hoje, a Polícia Científica conta com 497 servidores, sendo cerca de 310 peritos criminais. A estrutura prevista em lei exige 992 profissionais. Ou seja: falta praticamente metade da força de trabalho necessária.
Esse déficit não é apenas estatístico — ele compromete diretamente o atendimento à população e a capacidade de resposta da instituição. Como explica o presidente do Sindiperitos-ES, Enzo Ache Mazzini:
A perícia depende da presença física dos profissionais em praticamente todas as etapas do trabalho. A falta de efetivo impacta na emissão de carteiras de identidade e no atendimento de ocorrências.
A fala de Enzo traduz o que os profissionais vivem diariamente: sem peritos suficientes, não há como atender todas as demandas, realizar deslocamentos, operar laboratórios, emitir documentos ou produzir laudos com a agilidade que a sociedade espera.
Salários defasados agravam a evasão
O documento revela ainda que “hoje estamos em penúltimo entre os salários dos peritos no Brasil”, situação que provoca uma evasão constante. Profissionais recém-aprovados no concurso do Espírito Santo passam em seleções de outros estados e deixam a instituição antes mesmo de consolidar experiência.
Para Enzo, esse é o ponto mais grave:
“Lutamos pela valorização para justamente termos servidores no futuro.”
Sem valorização, o Estado investe em prédios, equipamentos e tecnologia — mas não consegue manter profissionais para operar essa estrutura.
Concurso autorizado não resolve o rombo
Um novo concurso está autorizado, com cerca de 160 vagas para peritos, médicos legistas e assistentes de perícia. Embora seja um avanço, o número não cobre nem 35% do déficit atual.
Além disso, a carreira de auxiliar de serviços periciais, recém-criada, ainda não possui nenhum servidor em exercício, mantendo gargalos em áreas essenciais.
O recado do Sindiperitos-ES
A expansão estrutural é importante. A tecnologia é necessária. Mas nada disso substitui o profissional perito.
O Espírito Santo só terá uma segurança pública eficiente quando enfrentar o déficit da Polícia Científica com a seriedade que o tema exige — e isso passa, obrigatoriamente, pela valorização da categoria.
Como afirma Enzo Ache Mazzini, em trecho que sintetiza toda a pauta sindical:
“Lutamos pela valorização para justamente termos servidores no futuro.”
Sem isso, o Estado corre o risco de ter prédios novos, equipamentos modernos — e nenhum profissional para operá-los.



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