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OPINIÃO. O peso do essencial: a mulher e perícia oficial capixaba

OPINIÃO. O peso do essencial: a mulher e perícia oficial capixaba

A trajetória recente da Polícia Científica do Espírito Santo dialoga diretamente com a história das mulheres — especialmente no Dia Internacional da Mulher. Em ambos os casos, o que é essencial para o funcionamento da sociedade é justamente o que mais sofre com invisibilidade, sobrecarga e desvalorização.

A lógica que precariza a perícia criminal é a mesma que, há séculos, precariza o trabalho feminino.

Estudos de gênero mostram que o “papel de cuidado” foi socialmente imposto às mulheres como se fosse natural, sustentando famílias, economias e instituições sem reconhecimento ou remuneração adequada. Esse acúmulo de papéis — a dupla e a tripla jornada — produz a chamada feminilização da pobreza: quanto mais essencial o trabalho, menor o valor que lhe é atribuído. A perícia capixaba vive um espelho dessa realidade. Sustenta investigações, dá rigor técnico às decisões judiciais e protege a sociedade, mas opera com salários defasados, estruturas improvisadas e exclusão dos debates que definem seu próprio futuro.

Assim como as mulheres foram historicamente afastadas das decisões sobre suas próprias vidas, a categoria foi deixada de fora de discussões centrais, como o grupo de trabalho sobre autonomia. E, quando reivindicou direitos — como nas mobilizações de 2022 — enfrentou tentativas de deslegitimação, repetindo um padrão conhecido por todas que ousaram exigir reconhecimento.

Os avanços recentes, como o edital da nova sede, não resolvem o essencial. Sem valorização salarial e autonomia plena, a perícia continua vulnerável — e as mulheres dentro dela continuam enfrentando dupla desvalorização: a institucional e a de gênero. A sobrecarga que adoece a “mulher multipapéis” também adoece uma instituição que opera acima de suas condições e abaixo do reconhecimento que merece.

Em 2026, ano eleitoral, essa reflexão se torna ainda mais urgente. Promessas se multiplicam, discursos se renovam, mas tanto as mulheres quanto os peritos — especialmente as peritas — aprenderam a não confundir palavras com compromisso. A sociedade observa. A categoria observa. E, como sempre, a conta chega para quem tratou o essencial como secundário.

Valorizar a Polícia Científica é fortalecer a justiça criminal e a segurança pública. É reconhecer que não existe Estado eficiente quando instituições fundamentais — e as mulheres que as sustentam — seguem invisibilizadas. Neste 8 de março, a pergunta que permanece é simples e incontornável: quem, neste ano eleitoral, está realmente disposto a enfrentar as estruturas que precarizam tanto o trabalho feminino quanto a própria perícia criminal capixaba?

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