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Verás que um filho teu não foge à LUTA

Verás que um filho teu não foge à LUTA

A trajetória recente da Polícia Científica do Espírito Santo evidencia um paradoxo que já não pode ser ignorado: trata-se de uma instituição essencial para a justiça criminal, mas tratada historicamente como acessória. Os peritos oficiais sustentam investigações, garantem rigor técnico às decisões judiciais e dão segurança à sociedade. Ainda assim, convivem com salários entre os mais baixos do país e sucessivas exclusões dos debates que definem o próprio futuro da categoria.

A retrospectiva do Sindiperitos demonstra que essa realidade não é fruto de acaso, mas de escolhas políticas. Desde antes de 2021, a categoria alertava para a evasão de profissionais, o sucateamento dos laboratórios e a ausência de autonomia institucional. Quando o governo criou um grupo de trabalho para discutir a autonomia da perícia sem incluir os próprios peritos, a mensagem institucional transmitida foi inequívoca: a perícia é necessária, mas não é prioridade.

Em 2022, a mobilização ganhou força e visibilidade. A PEC da autonomia avançou, mas acompanhada de resistência e tentativas de deslegitimar a atuação sindical. Os atos públicos, as manifestações diárias e a repercussão social expuseram a gravidade da situação. A convocação de peritos pela Corregedoria, após protestos legítimos, foi interpretada pela categoria como um gesto de intimidação — e reforçou a percepção de que a busca por direitos incomoda mais do que deveria em um Estado democrático.

Nos anos seguintes, o Sindiperitos ampliou o diálogo institucional, levou propostas ao Ministério Público, apresentou tabelas salariais e projetos de lei orgânica, e conquistou avanços pontuais, como o edital da nova sede. Mas é preciso reconhecer: sede moderna não substitui valorização. Sem remuneração compatível com a responsabilidade do cargo e sem autonomia plena, qualquer avanço estrutural permanece incompleto.

Em 2026, a categoria volta às ruas porque a defasagem salarial persiste e a autonomia continua travada. O salário inicial, mesmo após reajustes, permanece entre os menores do país, distante da média nacional. A perícia criminal capixaba segue operando com dedicação exemplar, mas sob condições que não condizem com a relevância institucional que possui.

E há um elemento que torna este momento ainda mais sensível: 2026 é ano de eleição. Em anos eleitorais, discursos se multiplicam, compromissos são reafirmados e promessas retornam ao centro do debate público. Mas a categoria — que nunca se omitiu, nunca se escondeu e nunca fugiu à luta — observa com atenção redobrada. A sociedade também observa. E, como sempre ocorre em ciclos eleitorais, a conta chega. Chega para quem prometeu e não cumpriu, para quem reconheceu a importância da perícia apenas no discurso, para quem tratou a autonomia como pauta secundária.

A valorização da Polícia Científica não é um favor; é uma exigência institucional. Sem perícia forte, não há investigação robusta. Sem investigação robusta, não há justiça eficiente. E sem justiça eficiente, nenhum projeto de segurança pública se sustenta. A luta dos peritos capixabas é, antes de tudo, uma luta pelo interesse público.

A retrospectiva deixa claro: a categoria resistiu, avançou e se manteve firme diante de todas as adversidades. Agora, em um ano em que o Estado será chamado a prestar contas, a pergunta que se impõe é simples e direta: quem, de fato, está disposto a tratar a Polícia Científica com a seriedade que ela exige?

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